Memória musical de Rodrigo Severo

Memória musical de Rodrigo Severo

27/03/2026 · 20:00:00
Entrevista realizada no dia 27 de março de 2026

Músicas do episódio

#1 O Meu Amor

00:03:43

Rodrigo recorda que ouviu a canção de Chico Buarque ainda criança, no ambiente familiar, e que inicialmente se constrangia com o conteúdo sexual e com as formas de desejo apresentadas pela letra. Ao revisitá-la em outras fases da vida, passou a compreender melhor a diversidade dos afetos e concluiu que a música lhe ensinou algo sobre como tratar as mulheres; a conversa também menciona sua integração à Ópera do Malandro e a censura sofrida durante a ditadura.

#2 A Nível de...

00:13:46

A música de João Bosco e Aldir Blanc aparece como uma lição direta para a adolescência: Rodrigo diz que ela lhe mostrou que era possível ser gay e que os vínculos afetivos podem ser fluidos, confusos e sujeitos ao fracasso em diferentes configurações. Ele conta que provavelmente a conheceu em uma apresentação no Parque da Cidade, possivelmente na voz de Cássia Eller, e que depois buscou a gravação de João Bosco; ao ouvi-la novamente, percebeu com mais incômodo os episódios de violência doméstica que antes lhe pareciam cômicos, mas preferiu mantê-la por fidelidade à própria memória.

#3 O Pulso

00:23:43

Escolhida para representar o rock brasileiro de sua formação e, em particular, os Titãs, a canção leva Rodrigo a apresentar Arnaldo Antunes como um modelo do poeta que gostaria de ser. A enumeração mistura enfermidades propriamente ditas a rancor, estupidez, ciúme, hipocrisia e culpa, sugerindo que esses estados também podem ser tratados como doenças; a conversa ainda relaciona a banda a uma forma de masculinidade capaz de acolher poesia, dança, pensamento e sensibilidade.

#4 School

00:32:19

Na versão ao vivo do Supertramp registrada no Pavillon de Paris em 1979, a faixa representa o pop e o rock internacional que Rodrigo assimilou por meio do gosto musical de pessoas próximas, especialmente uma prima que vivia em Portugal. Ele associa essas músicas em inglês a uma alegria leve e infantil, construída também pela brincadeira com palavras e fragmentos de letras, e destaca o prazer provocado pelo piano, pelo virtuosismo dos músicos e pelo crescendo dramático da execução.

#5 Smoke Rings

00:47:50

Rodrigo relata ter descoberto Laurie Anderson por volta dos 16 anos, ao assistir em VHS ao espetáculo Home of the Brave durante um encontro familiar, e ter ficado preso à obra mesmo achando que deveria rejeitá-la por ser estranha. A experiência lhe deu permissão para ser esquisito e abandonar a obrigação de se comportar como um “bom moço”; a conversa enfatiza ainda o jogo absurdo de perguntas sobre o que seria “mais macho”, a integração entre música, teatro e imagem e o impulso que ele sentia de mostrar aquela descoberta aos amigos.

#6 Na Hora do Almoço

01:13:03

Embora seja uma gravação de 1974, Rodrigo conheceu a música de Belchior apenas aos vinte e poucos anos e sentiu que o verso sobre ser jovem demais para tanta tristeza falava diretamente com ele, como um chamado para viver antes que chegasse a morte. A narrativa de uma família disfuncional não correspondia exatamente à sua história, mas lhe ofereceu palavras e uma tristeza emprestada para elaborar conflitos que não sabia nomear, funcionando como uma forma de catarse; ele também elogia a riqueza do arranjo e da gravação.

#7 Xiquexique

01:23:40

Tom Zé surge como o músico e artista que Rodrigo gostaria de ser caso tivesse talento equivalente, enquanto Xiquexique representa também a força física da dança. Ele descreve uma competição particular com a própria faixa, tentando dançar com intensidade até o fim e admitindo que, no máximo, consegue empatar com Tom Zé; a conversa conecta a música ao disco Com Defeito de Fabricação, ao espetáculo Parabelo e ao Grupo Corpo, mostrando como a obra transforma energia, invenção musical e movimento em uma experiência inseparável.

#8 Lavadeira

01:44:40

Rodrigo escolhe Lavadeira, em vez da faixa mais conhecida O Leve, para representar o privilégio de ter acompanhado de perto a criação do álbum. Ele descreve a passagem de composições inicialmente tocadas com voz, violão e pandeiro para arranjos construídos coletivamente no estúdio, com forte convivência e afetividade entre os participantes, e afirma que ali aprendeu a maravilha de assistir artistas criando; a letra sobre a lavadeira também o sensibiliza por retratar uma realidade social diferente da sua.

#9 Um Índio

02:00:28

A interpretação de Ney Matogrosso para a composição de Caetano Veloso exemplifica, para Rodrigo, como um artista pode criar uma nova obra a partir de outra já existente. Ele considera que a versão de Ney torna a letra e o drama da canção mais perceptíveis e recorda que, quando criança, se sentia simultaneamente atraído e perturbado pela presença sensual e colorida do cantor na televisão, demorando a se permitir gostar dele; a escolha reúne, portanto, admiração pela interpretação e uma memória de transformação pessoal.

#10 AmarElo

02:14:25

A faixa de Emicida, com Majur e Pabllo Vittar e a incorporação de versos de Belchior, é apresentada como uma colagem coletiva e como encerramento festivo. Rodrigo conta que, durante a pandemia, percebeu que a música expressava o momento, mas se censurou por temer que seu uso fosse desrespeitoso diante de tantas mortes; ao ver os artistas empregarem justamente essa obra como afirmação de sobrevivência, reconheceu a coragem artística que lhe faltara. As convocações dirigidas a pessoas em situações difíceis o emocionam e dão à escolha uma dimensão de esperança e resistência.