Músicas do episódio
#1 Rhapsody in Blue
00:04:30
Roberta associa a obra de George Gershwin a uma memória muito antiga, anterior à mudança de Minas Gerais para Brasília, quando seu pai acordava a família com discos nos fins de semana e os irmãos dançavam juntos na sala. A mistura de linguagem clássica com elementos modernos e jazzísticos a fascinava desde criança e ganhou outra dimensão quando ela reconheceu a música em uma animação da Disney. A escolha funciona principalmente como homenagem à presença musical e à modernidade do pai, conservando até hoje as mesmas emoções daquela escuta doméstica.
#2 Meu Caro Amigo
00:31:43
Roberta recorda ter conhecido a canção de Chico Buarque e Francis Hime ainda criança, por volta de 1976, ao ouvir o disco com a irmã na casa de uma vizinha. Embora inicialmente percebesse uma história aparentemente simples e até engraçada, sentia que havia algo estranho e político sob a superfície, impressão ligada ao ambiente da ditadura e à sua tendência de observar o mundo dos adultos. A conversa relaciona essa percepção precoce ao interesse político que já demonstrava em casa e comenta a urgência da gravação enviada a Augusto Boal no exílio.
#3 Danse macabre
00:43:15
A composição de Camille Saint-Saëns remete às sessões de música e dança da infância, quando o título e a atmosfera sombria alimentavam imagens de bruxas, assombrações e noites assustadoras que Roberta achava fascinantes. Anos depois, ela retomou a obra em tardes de dança e fantasia com Tatá, já na adolescência. A conversa mostra que sua relação com a música é fortemente visual e corporal: ao escutá-la, Roberta cria coreografias mentais para balé, patinação artística, ginástica e outros estilos, mesmo quando permanece parada apenas imaginando o movimento.
#4 The Great Gig in the Sky
00:59:55
A faixa do Pink Floyd chegou a Roberta por meio de Patrícia, amiga muito querida que enviava cartas gravadas em fitas cassete, alternando falas e músicas como uma espécie de podcast artesanal. Ela passou a ouvi-la na adolescência, deitada no quarto escuro, em uma fase marcada por livros, isolamento e escuta intensa de Pink Floyd e Chico Buarque. A escolha também homenageia a amiga já falecida, enquanto a conversa destaca o vocal de Clare Torry, sua posterior reivindicação de autoria e as falas sobre a morte inseridas na gravação.
#5 Clube da Esquina nº 2
01:12:15
A canção representa simultaneamente as raízes mineiras de Roberta, que voltaram a se tornar mais presentes com a idade, e o imaginário revolucionário da juventude, quando fantasiava desaparecer, trocar de nome e dedicar-se à luta por igualdade. Ela também associa a música ao encontro com amigos entre os quais finalmente sentiu pertencimento, depois de crescer como uma pessoa tímida, alternativa e frequentemente deslocada. Por isso, a escolha reúne Minas Gerais, idealismo, amizade, reconhecimento mútuo e a ideia de um grupo afetivo destinado a permanecer por toda a vida.
#6 Solo Quiero Caminar
01:24:58
Roberta liga a execução do sexteto de Paco de Lucía à paixão antiga pela música e pela dança espanhola. Na adolescência, vestia-se como cigana, colocava o disco em volume alto e dançava sozinha pela casa; mais tarde, estudou flamenco com acompanhamento de guitarra ao vivo e passou a compartilhar esse universo com Ricardo, guitarrista e companheiro. A conversa ressalta que o flamenco depende menos da perfeição coreográfica do que de força, intenção, paixão e presença corporal, elementos que a música ainda desperta nela.
#7 Are You Going with Me?
01:47:28
A faixa do Pat Metheny Group está associada ao período universitário em que Roberta se sentava sozinha nas áreas externas da Faculdade de Comunicação e passava horas ouvindo música, observando as pessoas e cultivando uma postura introspectiva. Foi ao escrever uma crítica sobre essa composição em uma disciplina de estética que um professor a definiu como uma pessoa impressionista, caracterização retomada no início da entrevista. A música também serviu para embalar o sono de sua sobrinha e afilhada, e a conversa comenta a presença de Naná Vasconcelos e a influência da música brasileira sobre Pat Metheny.
#8 Valsa Brasileira
02:07:26
Roberta apresenta a composição de Edu Lobo e Chico Buarque como expressão de seu lado romântico e da crença em um amor que parece existir antes mesmo do encontro, ideia que ela relaciona à vida com Ricardo. A admiração por Edu Lobo vem desde a infância e foi renovada quando o casal assistiu ao artista ao vivo, experiência em que a canção voltou a emocioná-los. A conversa também destaca a dificuldade melódica e harmônica da obra e recorda que o gosto por música brasileira e instrumental era uma afinidade importante entre Roberta e seus amigos na adolescência.
#9 Adios Nonino
02:17:29
A obra de Astor Piazzolla remete inicialmente à adolescência e ao intercâmbio musical com o irmão, que ligava o aparelho de som do próprio quarto a uma caixa no quarto de Roberta. Seu gosto por tango, piano e bandoneón conduz a lembranças familiares mais profundas: o avô violinista, malvisto por viver como caixeiro-viajante e músico, e o pai, figura moderna e amorosa, mas também rígida. Ao narrar como cuidou do pai durante o Alzheimer, Roberta descreve um processo de inversão de papéis, compreensão e perdão tardio; a música integra ainda o ritual doméstico de ouvir canções e chorar junto com Ricardo.
#10 Carta de Amor
02:38:08
Roberta define a canção interpretada por Maria Bethânia como manifesto, hino de espiritualidade e afirmação da força feminina. Ela a conheceu por intermédio da filha, Bruna, cuja autonomia, clareza, sensibilidade e posicionamento político admira, e com quem já dançou a música em casa em coreografias espontâneas. A escolha representa a herança construída entre mãe e filha e a certeza de não caminhar sozinha, enquanto a conversa ressalta a colagem de referências religiosas e culturais brasileiras criada por Paulo César Pinheiro e a força da interpretação falada e cantada de Bethânia.