Memória musical de Alexandre Dunguel

Memória musical de Alexandre Dunguel

13/06/2026 · 20:00:00
Entrevista realizada no dia 13 de junho de 2026

Músicas do episódio

#1 Passaredo

00:04:08

Alexandre associa a gravação do MPB-4 para o Sítio do Picapau Amarelo à infância e à experiência de uma geração que recebeu música infantil produzida por artistas como Chico Buarque, Francis Hime, Vinicius de Moraes e Toquinho. As vozes masculinas do grupo lhe lembram o pai, os tios e o avô, criando uma sensação de proteção e ancestralidade. A advertência ‘o homem vem aí’ também remete à consciência ambiental transmitida pela mãe e à tensão política da época, enquanto as imagens televisivas do sítio dão à lembrança uma atmosfera solar.

#2 Pedacinhos do Céu

00:14:54

A música de Waldir Azevedo representa a descoberta do chorinho e do cavaquinho, provavelmente a partir de uma apresentação vista na televisão quando Alexandre tinha cerca de dez anos. Depois de uma experiência frustrante com o ensino teórico da Escola de Música, ele tentou estudar cavaquinho e percebeu a dificuldade física do instrumento para uma criança. A escolha marca a abertura para sons que não faziam parte de seu universo imediato e se conecta às memórias familiares do avô boêmio, das serestas, do rádio e de espaços de choro frequentados pela família.

#3 Este Seu Olhar

00:28:47

Na interpretação de Dick Farney, a composição de Tom Jobim funciona como porta de entrada de Alexandre para o jazz, especialmente o canto intimista e a sonoridade do cool jazz que dialogariam com a formação da bossa nova. Ele destaca o piano, a bateria com vassourinhas e a gravação detalhada, além de sua tendência de buscar no Brasil as expressões musicais que admira. A conversa também recorda a rádio do recreio organizada com o amigo Beto no colégio, quando defendiam música brasileira diante de colegas interessados sobretudo em rock estrangeiro.

#4 Imagina

00:38:46

A versão instrumental de Imagina, também conhecida como Valsa Sentimental, foi escolhida para representar o papel de Tom Jobim na aproximação de Alexandre com a música erudita. Os arranjos orquestrais, as cordas, os sopros e a riqueza de timbres acostumaram seu ouvido à linguagem sinfônica e abriram caminho para compositores de outras épocas. A faixa também concentra, de forma indireta, a experiência de muitos anos cantando em coral e o interesse por música coral, referências que precisaram ser comprimidas na seleção de apenas dez músicas.

#5 Respeita Januário

00:47:57

Depois da sonoridade sinfônica, Alexandre escolhe Respeita Januário para voltar à sanfona, ao baião e à criação popular ligada ao chão brasileiro. A narrativa sobre Luiz Gonzaga e o pai, Januário, permite atravessar gerações e lembrar uma linhagem que segue por Dominguinhos, Borghetti, Mestrinho e outros instrumentistas. Ele valoriza a musicalidade produzida por pessoas simples no mesmo nível da tradição erudita, destaca o trio de sanfona, zabumba e triângulo e faz questão de reconhecer Humberto Teixeira como parceiro e letrista.

#6 Se Eu Quiser Falar com Deus

00:57:37

Embora se declare agnóstico, Alexandre vê a música como uma forma de religião e associa a composição de Gilberto Gil ao deslumbramento diante do universo, da vida e das pessoas. A letra lhe oferece uma experiência mística sem exigir adesão ao Deus católico, alcançando tanto pessoas religiosas quanto não religiosas. A conversa comenta que a obra teria sido encomendada a Gil por Roberto Carlos e recusada, mas, para Alexandre, ela expressa de maneira direta e emocional o que poderia significar falar com Deus.

#7 La Vie en rose

01:09:00

A gravação de Louis Armstrong reúne a canção francesa associada a Édith Piaf, a voz e o trompete de um dos grandes nomes do jazz e uma memória íntima do início do namoro com Mônica. Alexandre recorda chegar ao encontro dela ‘vendo a vida em rosa’ enquanto a música tocava, lembrança que Mônica não sabia ocupar esse lugar na história do casal. As conversas sobre França, viagens e a temporada que viveriam no país também faziam parte do começo da relação, tornando a escolha uma declaração afetiva e uma síntese de várias influências.

#8 Tema de Amor de Gabriela

01:16:17

A faixa do álbum Passarim traz a memória de Alexandre, Roberta e Renata ouvindo o disco repetidamente e tentando reproduzir juntos os arranjos vocais. O nome Gabriela, escolhido para a filha, concentra um território cultural formado por Jorge Amado, Dorival Caymmi, Gal Costa, Tom Jobim e outras referências da música brasileira. A escolha mostra como Alexandre prefere músicas capazes de reunir várias histórias ao mesmo tempo: amizade, prática vocal, literatura, afetos familiares e a intenção de dar à filha um nome musical.

#9 Clube da Esquina nº 2

01:34:57

Alexandre escolhe a versão acústica de Clube da Esquina nº 2 principalmente para colocar em primeiro plano a voz de Milton Nascimento, que considera uma das mais belas existentes. Ele comenta que, ao ouvir Se Eu Quiser Falar com Deus, imagina a canção na voz de Milton, e usa esta faixa como a concessão necessária para que o cantor estivesse representado em sua lista. A interpretação vocal, a letra acrescentada à composição originalmente instrumental e a atmosfera ligada a estrada, sonho, juventude e amizade sintetizam a força afetiva do Clube da Esquina em sua formação.

#10 With a Little Help from My Friends

01:43:05

Os Beatles não foram uma referência espontânea para Alexandre, mas chegaram a ele por meio da filha, apaixonada pelo grupo e responsável por fazê-lo ouvir mais, assistir a documentários e participar desse repertório familiar. Para preservar sua perspectiva brasileira, ele escolhe a versão de Rita Lee, cantora que reinterpretou os Beatles no álbum Aqui, Ali, em Qualquer Lugar. O título encerra o programa como agradecimento aos amigos presentes e transforma a abertura musical promovida pela filha em uma celebração da amizade e da formação construída com a ajuda de outras pessoas.